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sábado, 20 de junho de 2009

Não ter e ter tudo

Não tenho de ti o gosto
mas tuas palavras me escorrem
pelo tronco
pelo dorso
pelas coxas
pelo corpo

Não tenho de ti o tato
mas caminho no teu rastro
no teu faro
no teu mastro
quando no chão

minha sombra tem sua marca

Não tenho de ti o rosto
mas te vejo no ônibus
no colo
no solo
e nos olhos
de outros

Não tenho de ti a matéria
mas te sinto na pele
na minha cela
nas mechas
e no vértice
da minha febre

Não tenho de ti o sorriso
mas brinco contigo
te imito
arrisco
palpito
e o admiro

Não tenho de ti o rumo
mas pinto as tuas ruas
o teu prumo
teu sumo
teu suco
e teu lume

Eu não te tenho a ti
e por favor, não me apareça!
Pois não te quero perto

quero-te aqui neste deserto
para gozar-te assim
minha miragem e criação mais que perfeita.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

TEMPO DE DENTRO, TEMPO DE FORA

Este tempo interno de silêncio noturno
é uma viola sem corda
é como árvore sem copa
e um ranger de portas

Mas o tempo, ela pensa
lá fora é de prosa
de vinho quente, de côco
quentão e paçoca

Então
ela aquece
o corpo na fogueira
e esquece

o acordo das horas

E seu coração

(que bambeia na corda)
dá corda para as cismas
e acorda pra cima.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

VESTINDO OUTUBROS Pocket Zine


VESTINDO OUTUBROS Pocket Zine [Ano 1, nº1]
é uma publicação conjunta dos blogs
Cinco de Outubro e Vestindo Letras



Olá!


Nesta primeira edição do Zine Vestindo Outubros construímos três textos em referência aos rumos da literatura no meio digital. O primeiro, Arquivo Aberto, faz uma alusão ao Open Archives Initiative, considerando-o também como proposta para a literatura. Depois, em Desbloqueio de Blogs, o alerta fica para o uso que se pode fazer deste recurso para a disponibilização de originais na rede, em relação ao ineditismo exigido pelas editoras, prêmios e concursos, também abordados no texto anterior. Para finalizar o debate, o tema escolhido foi Literatura à Distância, cujos questionamentos giram em torno da acessibilidade e do barateamento de custos para que originais e grandes nomes da literatura cheguem a pontos distantes e de difícil acesso.


O Zine Vestindo Outubros conta também com uma parte de criação literária para divulgação de pequenas crônicas e poemas. Nesta edição, Virtualidades fala sobre os sentimentos provocados pelas palavras virtuais, o preto no branco, em sua relação direta com o autor. Já em Matéria-Prima, Letícia Mendonça faz uma interpretação poética sobre letras e autoria.



Seguem os pockets textos. Boa leitura.







Arquivo Aberto


A web veio para ficar e disseminar literatura. Algumas boas, muito boas, outras ruins, muito ruins. Sobre ela incidem questões como ineditismo e originalidade, aspectos também disputados pelas editoras, prêmios e concursos. Um sistema que gera expectativas e serve de degrau para novatos, trampolim para outros, seja através dos blogs, sites e revistas especializadas, seja através de prêmios e concursos. Este embate dos direitos autorais influencia autores. A maioria mantém originais guardados à espera de editoras. Uns encontram na web uma forma de galgar o espaço aberto, disponibilizando sua obra. Uma crescente. Movimentos como o Open Archives Initiative estimulam a produção e a divulgação de conteúdo livre e reacendem o debate sobre o ineditismo. Ao se rever o que, de fato, deve ser original no mundo dos livros, prêmios e concursos, abre-se um espaço para aquilo que de novo a internet pode fazer pela literatura.





Desbloqueio de Blog



Cada vez mais os blogs deixam de ser diários virtuais. Dia-a-dia tornam-se um espaço de idéias e discussões sérias. Há quem viva deles e se não é possível viver de literatura no país, por certo que os blogs podem dar uma mãozinha. A conta é simples e traz questionamentos. O programa Professor Afiliado Submarino chegou a pagar 10% preço de capa ‘pay per click’, mesmo valor que recebe um autor pelo seu original. Já o marketing de guerrilha é capaz de fazer um blog ser acessado por muitos e por todos. Quanto mais tráfego gerado, maior a rentabilidade. A possibilidade de mais pessoas lerem originais ou terem acesso a eles é instigante, principalmente aos novos autores. Mecanismos como o pagerank determinam o grau de importância de cada página na web bem como a credibilidade do texto, que deve passar distante do copia e cola. Algumas editoras já começaram a desbravar este novo mercado, cientes de que um empurra o outro. No caminho inverso, ainda há mais agendas literárias do que blogs produzindo literatura.









Literatura à Distância


Fato consumado, a internet rompeu com o mundo fechado das comunicações e, além, firmou-se como uma ferramenta na diminuição das distâncias, entre elas, a literatura. Não importa o local em que se está, basta ter um computador plugado e é possível acessar as obras disponibilizadas on-line, Fernando Pessoa, Machado de Assis. Uma acessibilidade que torna a literatura mais democrática e menos elitista. Ela pode chegar, por exemplo, àqueles municípios onde muitas editoras não chegam. Através da web, a literatura atravessa fronteiras, viabilizando trocas entre países, línguas e culturas diferentes. Nas escolas, torna-se uma ferramenta valiosa e de baixo custo, complementando bibliotecas. E somando, a web interativa (2.0) permite aos usuários se colocarem de maneira mais ativa diante do mundo virtual. De meros receptores, passam também a construtores deste espaço, comentando, opinando, idealizando. Afinal, ninguém mais quer ficar de fora. E você?




Virtualidades

por Fernanda de Aragão


Não são só palavras num preto e branco. Há desenhos e há laços, todos repletos de sentimentos, e sonhos, e ilusões. Há coloridos que se misturam com a realidade dos desejos, dos afetos. Não são só palavras. É o ar rarefeito num preto e branco, é o medo que dói no peito, a insegurança que aperta o sangue, o suspiro que ninguém vê, mas que está ali. Está tudo ali. O ar, o peito, o medo, o sangue, a insegurança e o suspiro. A falta de razão. Está ali. A vontade do toque, o sentido das mãos para longe dos teclados. O arrepio está ali, e a vontade de amar de novo. A provocação, uma diferença, um se entregar no escuro, sem forma, sem rosto, sem padrão. Ali, onde não há só palavras num preto e branco, é um futuro que não se sabe, se imagina, se faz existir em pensamentos, imagens, realidades. Não são só palavras, um nada a ver preto e branco, um não ser. O afago está ali, a vontade, o desejo do acerto. Tudo ali, em palavras à flor da pele, à espera, e tudo aquilo que mais se escapa à tela: a respiração ofegante, o silêncio e o blábláblá pra se fazer rir, para se sentir no dentro. Não, não são só palavras num preto e branco. É toda uma esperança do encontro.


Matéria-Prima
por Letícia Mendonça

Vislumbro xícaras vazias
e as letras despertam

O meu auto-retrato
são letras dispersas
Calos e cacos
De letras que apertam

Mas me faço de anzol e de vara
(minhas letras espertas)

Linhas, linhas e linhas
Minha matéria-prima
são letras, espaços e vírgulas.

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Esta postagem foi retirada do blog Cinco de Outubro, de Fernanda de Aragão. Se você quer ter a primeira edição do VESTINDO OUTUBROS Pocket Zine, entre em contato. Ainda dá tempo!