Ele, presa dos quereres
Presa dos desejos
Presa de tormentos
Preso em seus segredos.
Ele, presa das ausências
Presa da carência
Presa dos erros
Preso no beco do silêncio
Preso em escrever ao vento.
Ele, de cegueira enrijeceu no tempo
E apodreceu no esquecimento.
Páginas
quarta-feira, 28 de maio de 2008
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Murmúrios
terça-feira, 13 de maio de 2008
Valsa, sabiá
Valsa no ar sabiá, em casta liberdade
Liberdade vasta na amizade
Amizade larga de abraços
Abraços, dádiva de laços
Laços, lágrimas e gargalhadas
Gargalhadas cálidas nas faces
Faces calmas, paz ensolarada
Ensolarada tarde, o sabiá valsa
Valsa em homenagem à amizade.
Liberdade vasta na amizade
Amizade larga de abraços
Abraços, dádiva de laços
Laços, lágrimas e gargalhadas
Gargalhadas cálidas nas faces
Faces calmas, paz ensolarada
Ensolarada tarde, o sabiá valsa
Valsa em homenagem à amizade.
domingo, 11 de maio de 2008
A carta
Uma carta presente.
Mas como começá-la?
Eu poderia lembrar de várias passagens de nossas vidas, como as festinhas escolares em que você nunca deixou de comparecer!
Poderia lembrar das nossas viagens em família na cama voadora. Ou, da casa branca e das meninas pobres que passavam pedindo água enquanto você lavava o quintal. E eu, ciumenta!
Eu poderia colocar as nossas noites em que assistíamos novela juntas, e em que nós duas acreditávamos que eu era a Ana Raio.
Poderia colocar a minha falta de vontade de ir para a escola com os meus poucos três anos de idade, e você, numa larga risada, dizendo que eu fugi. E eu montava uma cena curiosíssima, na qual eu (um bebê) escalava e pulava o muro e saía correndo, no filme chamado "a fugitiva".
Poderia lembrar de quando você me fez ir pedir desculpas na escola para as professoras por ter cometido um ato, digamos, desumano.
Poderia lembrar das musiquinhas, uma para cada situação: "tá com frio, bate a bunda no rio; tá com calor, bate a bunda no tambor" (para a hora do banho). Ou "salve D. Pedro II, salve D. Pedro II" (quando o mertiolate ardia no machucado).
Ou da pergunta costumeira, cuja a resposta eu nem faço idéia de onde tirei:
Você: - Quem é você?
Eu: - Letícia!
Você: - E pra quê serve uma Letícia?
Eu: - Para amar!
Poderia colocar o seu empenho para que eu e meus irmãos fizéssemos as mais diversas atividades, e tivéssemos a melhor formação possível.
Poderia colocar as nossas conversas atuais, entre duas mulheres que falam da vida, das expectativas, das vivências, das verdades de cada uma.
Verdade que, por sinal, sempre foi sua marca, e que é o seu nome! E, graças a você, foi assim que crescemos. Valorizando a verdade. Porque você sempre deixou tudo às claras, sem meias verdades, sem evitar qualquer assunto.
Poderia colocar as risadas, as lágrimas, as broncas, os carinhos.
Nossa...eu poderia colocar tanta coisa!
Mas o que a minha memória insiste em me jogar na cara, é a lembrança daquela pergunta que você me fazia em dias como hoje: "o que você vai me dar de presente?"
E eu, sem dinheiro e, portanto, sem possibilidades de atender aos pedidos do consumismo, e por desde sempre acreditar que as letras poderiam ser o presente mais sincero, respondia seriamente: "a carta!". Eu nem sabia escrever ainda!
Você, orgulhosa, saía contando aos quatro ventos!
É...e aqui está a sua carta (mais uma entre as várias). Escrevo para agradecer o respeito, o carinho, o amor, a dedicação, os "petelecos", os ensinamentos, a sensibilidade, os valores, tudo!
Agradecer a você, minha mãe, mulher forte, voz grossa, cara de brava e coração mole. Mulher que sempre foi dona de si mesma; mulher família; inteligente; mulher independente. Mãe amorosa, defendendo seus filhos sempre com unhas e dentes, mas sem passar-lhes a mão nos cabelos, quando errados.
Uma mulher que merece a minha admiração e a de tantos outros que tiveram a oportunidade de conhecer!
Com letras sinceras de amor,
Letícia.
E parabéns a todas as mães!
Mas como começá-la?
Eu poderia lembrar de várias passagens de nossas vidas, como as festinhas escolares em que você nunca deixou de comparecer!
Poderia lembrar das nossas viagens em família na cama voadora. Ou, da casa branca e das meninas pobres que passavam pedindo água enquanto você lavava o quintal. E eu, ciumenta!
Eu poderia colocar as nossas noites em que assistíamos novela juntas, e em que nós duas acreditávamos que eu era a Ana Raio.
Poderia colocar a minha falta de vontade de ir para a escola com os meus poucos três anos de idade, e você, numa larga risada, dizendo que eu fugi. E eu montava uma cena curiosíssima, na qual eu (um bebê) escalava e pulava o muro e saía correndo, no filme chamado "a fugitiva".
Poderia lembrar de quando você me fez ir pedir desculpas na escola para as professoras por ter cometido um ato, digamos, desumano.
Poderia lembrar das musiquinhas, uma para cada situação: "tá com frio, bate a bunda no rio; tá com calor, bate a bunda no tambor" (para a hora do banho). Ou "salve D. Pedro II, salve D. Pedro II" (quando o mertiolate ardia no machucado).
Ou da pergunta costumeira, cuja a resposta eu nem faço idéia de onde tirei:
Você: - Quem é você?
Eu: - Letícia!
Você: - E pra quê serve uma Letícia?
Eu: - Para amar!
Poderia colocar o seu empenho para que eu e meus irmãos fizéssemos as mais diversas atividades, e tivéssemos a melhor formação possível.
Poderia colocar as nossas conversas atuais, entre duas mulheres que falam da vida, das expectativas, das vivências, das verdades de cada uma.
Verdade que, por sinal, sempre foi sua marca, e que é o seu nome! E, graças a você, foi assim que crescemos. Valorizando a verdade. Porque você sempre deixou tudo às claras, sem meias verdades, sem evitar qualquer assunto.
Poderia colocar as risadas, as lágrimas, as broncas, os carinhos.
Nossa...eu poderia colocar tanta coisa!
Mas o que a minha memória insiste em me jogar na cara, é a lembrança daquela pergunta que você me fazia em dias como hoje: "o que você vai me dar de presente?"
E eu, sem dinheiro e, portanto, sem possibilidades de atender aos pedidos do consumismo, e por desde sempre acreditar que as letras poderiam ser o presente mais sincero, respondia seriamente: "a carta!". Eu nem sabia escrever ainda!
Você, orgulhosa, saía contando aos quatro ventos!
É...e aqui está a sua carta (mais uma entre as várias). Escrevo para agradecer o respeito, o carinho, o amor, a dedicação, os "petelecos", os ensinamentos, a sensibilidade, os valores, tudo!
Agradecer a você, minha mãe, mulher forte, voz grossa, cara de brava e coração mole. Mulher que sempre foi dona de si mesma; mulher família; inteligente; mulher independente. Mãe amorosa, defendendo seus filhos sempre com unhas e dentes, mas sem passar-lhes a mão nos cabelos, quando errados.
Uma mulher que merece a minha admiração e a de tantos outros que tiveram a oportunidade de conhecer!
Com letras sinceras de amor,
Letícia.
E parabéns a todas as mães!
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Letras negras

Insônia. A noite é gelada e não tem mais ninguém em casa. Não tem mais ninguém nas ruas, nem ninguém na cidade. O planeta parece estar deserto. Nenhum ruído.
Ela se encolhe no canto da mesa. Acende um cigarro.
Ainda tem café na garrafa. Ela se serve, mesmo estando quase frio.
E come... o cigarro.
À sua frente, uma caneta e uma folha de papel. São suas armas.
Compulsivamente, ela vomita no papel: uma mistura de sangue, café e cigarro. Letras negras.
Letras denunciando o quanto ela sente nojo dele.
Nojo da língua quente dele a passear pela sua boca. Nojo daquelas mãos grosseiras arrancando suas roupas. Nojo daqueles braços forçando a abertura de suas pernas, e daquele quadril se impondo sobre o dela, como se fosse um lobo faminto avançando na carne fresca. Bruto e rápido, deixando a sujeira espalhada e indo embora sem dizer adeus.
E ela sente nojo de seu próprio corpo, que agora treme por conta da lembrança. Nojo de si mesma, por necessitar tanto dele.
Ela olha para baixo e vê suas pernas apodrecerem. Come outro cigarro.
Levanta e se olha no espelho. Figura tuberculosa.
Duas crateras no lugar de olhos. Um prazer imenso corre pelas suas veias, que carregam um líquido preto.
Solta uma gargalhada seca.
Porque agora, ela é só prazer!
Prazer em imaginar o rosto dele, quando, na próxima visita efêmera, encontrar o seu cadáver acinzentado e o papel jogado ao lado, dizendo "a culpa é sua".
Ela se encolhe no canto da mesa. Acende um cigarro.
Ainda tem café na garrafa. Ela se serve, mesmo estando quase frio.
E come... o cigarro.
À sua frente, uma caneta e uma folha de papel. São suas armas.
Compulsivamente, ela vomita no papel: uma mistura de sangue, café e cigarro. Letras negras.
Letras denunciando o quanto ela sente nojo dele.
Nojo da língua quente dele a passear pela sua boca. Nojo daquelas mãos grosseiras arrancando suas roupas. Nojo daqueles braços forçando a abertura de suas pernas, e daquele quadril se impondo sobre o dela, como se fosse um lobo faminto avançando na carne fresca. Bruto e rápido, deixando a sujeira espalhada e indo embora sem dizer adeus.
E ela sente nojo de seu próprio corpo, que agora treme por conta da lembrança. Nojo de si mesma, por necessitar tanto dele.
Ela olha para baixo e vê suas pernas apodrecerem. Come outro cigarro.
Levanta e se olha no espelho. Figura tuberculosa.
Duas crateras no lugar de olhos. Um prazer imenso corre pelas suas veias, que carregam um líquido preto.
Solta uma gargalhada seca.
Porque agora, ela é só prazer!
Prazer em imaginar o rosto dele, quando, na próxima visita efêmera, encontrar o seu cadáver acinzentado e o papel jogado ao lado, dizendo "a culpa é sua".
terça-feira, 6 de maio de 2008
BOLA
É pele com pele,
É aperto de mão,
Platéia aplaudindo de pé,
Serpentina, samba e salão.
É pérola em exposição.
Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, quantas histórias!
É pai observando o parto,
Público e primavera no parque.
Balões e palhaços.
É a beata e o padre,
E do bebê, os proimeiros passos.
É o planeta debaixo dos braços.
Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, tantas histórias.
É aperto de mão,
Platéia aplaudindo de pé,
Serpentina, samba e salão.
É pérola em exposição.
Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, quantas histórias!
É pai observando o parto,
Público e primavera no parque.
Balões e palhaços.
É a beata e o padre,
E do bebê, os proimeiros passos.
É o planeta debaixo dos braços.
Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, tantas histórias.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
O guarda-chuva eu dispenso!
Sim! Definitivamente, está chovendo há tempos.
Do seu início eu nem me lembro. Talvez tenha sido junto com o meu nascimento.
Quem sabe quando eu aprendi o que significavam? Ou quando eu aprendi que elas me significavam!
É que agora, mais do que nunca, chovem letras onde me encontro.
E não me faço de rogada! Peito aberto, eu corro de encontro.
Primeiro, elas vêm de fora para dentro, e de maneira diversa.
Existem as letras que me entram pelos ouvidos e que me fazem lembrar que tenho um corpo dançante.
Estas bailam pelo ar e, quando fecho os olhos, é como se eu pudesse tocá-las. Em resposta, elas me arrepiam os pêlos pela superfície dos poros.
Existem as letras pés descalços e chão de barro, que me entram pelo olfato trazendo cheiro de mato.
Existem as letras luxuosas, top model, salto alto. Estas que usam batom vermelho, rímel e espelho.
Outras, ainda, são dentes à mostra e cócega no estômago.
Há também as letras revoltadas, que empinam suas bandeiras como pipas em céu azul de verão.
Letras, letras, letras. Sempre me agradaram.
Mesmo quando as minhas ainda eram garatujas, já contavam as coisas do mundo.
E agora elas chovem de dentro para fora, cada vez com mais gosto. E molham meu rosto. E gotejam sem jeito. E entregam meu peito.
E eu aproveito.
Pois, em chuva de letras, o guarda-chuva eu dispenso!
Do seu início eu nem me lembro. Talvez tenha sido junto com o meu nascimento.
Quem sabe quando eu aprendi o que significavam? Ou quando eu aprendi que elas me significavam!
É que agora, mais do que nunca, chovem letras onde me encontro.
E não me faço de rogada! Peito aberto, eu corro de encontro.
Primeiro, elas vêm de fora para dentro, e de maneira diversa.
Existem as letras que me entram pelos ouvidos e que me fazem lembrar que tenho um corpo dançante.
Estas bailam pelo ar e, quando fecho os olhos, é como se eu pudesse tocá-las. Em resposta, elas me arrepiam os pêlos pela superfície dos poros.
Existem as letras pés descalços e chão de barro, que me entram pelo olfato trazendo cheiro de mato.
Existem as letras luxuosas, top model, salto alto. Estas que usam batom vermelho, rímel e espelho.
Outras, ainda, são dentes à mostra e cócega no estômago.
Há também as letras revoltadas, que empinam suas bandeiras como pipas em céu azul de verão.
Letras, letras, letras. Sempre me agradaram.
Mesmo quando as minhas ainda eram garatujas, já contavam as coisas do mundo.
E agora elas chovem de dentro para fora, cada vez com mais gosto. E molham meu rosto. E gotejam sem jeito. E entregam meu peito.
E eu aproveito.
Pois, em chuva de letras, o guarda-chuva eu dispenso!
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