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domingo, 11 de novembro de 2012


SEM TÍTULO

    1.       Não importa onde nem quem:
antes do princípio, é o nome.

    2.       Em 2010, o Livro dos Recordes publicou o nome mais comprido do mundo, que é o de uma mulher holandesa. O nome conta com 165 palavras e 865 caracteres. Seu marido diz que por ter o nome tão comprido, ela tem múltipla personalidade, e afirma: “Nunca sei com qual estou lidando!”.

     3.       Pintou durante quatro semanas e não assinou a obra. Seu cunhado, depois de sua morte, apropriou-se da tela e ganhou muito dinheiro com a venda.

     4.       “Apague meu nome da sua agenda”. Foi a última coisa que ouviu.

     5.       Há um abismo entre o nome e a superfície tátil da coisa.

     6.       Jocirene e Marcos queriam que seu filho tivesse um pouco da personalidade e da aparência dos dois. Deram-lhe o nome de Jocimar.

     7.       Troque o nome de uma pessoa, e você estará marcado para sempre na memória dela.

     8.       De 1987 até 1991, na cidade de Novais, as famílias evitavam se referir uns aos outros pelos nomes antes do café da manhã. Diziam que se o fizessem, a pessoa teria problemas irreversíveis de gagueira.

    9.       Cramulhão, demo, lúcifer, cabrunco, capiroto, satã, chifrudo...Escolha o que melhor convier.

    10.   Nomes se embrenham viscosamente nas artérias.

     11.   Cleide tem a pele negra, e não sabe nada da África. É proprietária de uma pequena doceria na periferia da cidade, e o produto mais famoso em sua loja era a “teta de nega”. Diante de algumas mudanças de nomenclatura, pensou que seria melhor mudar a placa, que agora diz: “seio de mulher afrodescendente: apenas R$ 2,50 a caixa”.
As vendas caíram drasticamente.

     12.   Depois que passou a conviver com a doença de sua mulher, vítima de Alzheimer, Moacyr anota todos os nomes de pessoas com quem tem contato e lugares por onde passa.

     13.   No Brasil, e desde 2008, a lei permite que, ao completar 18 anos, a pessoa mude o nome sem precisar de qualquer justificativa e sem nenhum custo. É preciso apenas ir até o cartório onde foi feito o registro. O prazo é de um ano e depois desse período, é necessário entrar com uma ação judicial.

    14.   Cecília é programadora de sistemas da prefeitura. Na última semana, passou todo o tempo de trabalho atualizando os cadastros que continham a palavra Favela. Nas planilhas, agora, as favelas são “Núcleos Habitacionais”.

    15.   O nome dele insiste aqui.

    16.   A estudante universitária Valéria M. A. descobriu , através de redes sociais, que tinha quatro homônimos na cidade. Mandou um e-mail a cada uma, pedindo que mudassem de nome. Seu principal argumento: “Sempre quis ser única”.

     17.   Desde que eu descobri seu nome, pelo menos uma vez por semana, faço testes online para saber se combinamos.

     18.   Não pronuncie em vão!

     19.   Pegue um mapa e trace uma rota. Circule todas as cidades do caminho, e vá.
Depois de um tempo, descobrirá que qualquer que seja o plano traçado, acabará na cidade Sem Nome. A cidade Sem Nome é uma pequena máquina do mundo.

     20.   O vento apaga, aos poucos, o nome escrito na areia.

     21.       Depois do fim, é só o nome.

domingo, 8 de julho de 2012

Sem conexões disponíveis

Faltam-lhe cifras
e viram-lhe as costas
para as palavras

Fecham-lhe na cara
os vidros dos carros (e das vistas)
insufilmados para seus pés descalços

Delimitam sua circulação
(como bois no pasto)
expurgam
e tampam-lhes os acessos

Faltam-lhe massa e tintas nas paredes
e invadem-lhe a casa (às 3:00h da manhã)
invadem-lhe o corpo
e pisam-lhe (os brinquedos, as roupas, as faces)

Mas este ser
quando revolver o norte
(quando revolver o revólver)
será mais um nas estatísticas
(que condôminos aplaudirão)
Silêncio e túmulo.

sábado, 7 de abril de 2012

TRÊS PONTOS E UMA COSTELA*

1.

Lavar as roupas brancas, comprar um novo micro-ondas, pagar as faturas vencidas, contratar
Uma nova faxineira, terminar o projeto do trabalho, buscar o carro no mecânico, lixar
As paredes, começar um curso de pós, trocar os canos da pia, limpar o armário, pintar
As paredes do quarto, ir às reuniões de pais, pregar as prateleiras, comprar
Roupas novas, malhar os glúteos, hidratar os cabelos, declarar
O Imposto de Renda, depilar o pelos, ligar
Para o dentista, trocar
A resistência

E empacotar os sutiãs velhos.

2.

Naquela manhã
Gastou uma hora no banho
Reforçou a curva dos cílios.

Deixou uma parte do peito à mostra
Amarrou um laço no trinco
E saiu.

Abriu o guarda-chuva
(era como abrir um bilhete premiado)


Olhava as ruas
Sem atravessá-las.
(as duas calçadas eram suas).

Riu da sua imagem no vidro da loja.
entrou, comprou dois óleos e uma lingerie

Jogou farelo de pão no jardim
(queria dar de comer aos pássaros).

 Desde a noite passada
Sentia-se prenhe.


3.
Mas há os dias de acetona
(Nas unhas,
Na pele,
Nos olhos).

Do cabelo desmanchado,
Pernas cruzadas
(Elas e as cortinas fechadas)

De quebrar a porcelana, e deixar o pó
Consumir a casa

Há os dias em que a boca
(saciada)
Arranca sangue dos seios
(dias de calar o ventre)

Ponto em cruz
E linhas inacabadas
Para uma costela feita de carne.

______________________
*Poema anteriormente publicado no Jornalirismo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre Peles

Despeja em mim as palavras
Quando falo para dentro
E quando calo para fora
Resgata-me as rodas de
Signos gira-mundo gigantes

Como o mar
a cada segundo
: expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne

e