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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Olhe, quão brilhosa sou sendo ébria
Sou Paris renovada em cada canto da pele
exalando pelos poros pares de sinfonias de festas
fazendo-me piano para o virtuose dedilhar-me as teclas
Quão obreira sou sendo ébria
peixe e arroz na panela de barro
toalha de linho, duas taças de vinho, minha mesa oferta
quão arquiteta das minúcias sou sendo ébria
E quão briosa sou sendo ébria
as pupilas dilatadas sentem o cheiro das cores
quando na íris se instala a prata polida do ego
e dança um carrossel no fundo do espelho mais sério
É a janela que nunca se fecha
sendo ébria, pinto-me nos livros
e me finco bandeira na Terra.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
SOBRIEDADE
Pois, se embriagada eu fosse
teria medo dos pios da noite
inventaria garras, monstros e horrores
para as simples criaturas terrenas
Se embriagada eu fosse
ao quebrar a sandália
culparia o buraco da calçada
emcobrindo a fragilidade do couro
se embriagada eu fosse
Na sobriedade, ao contrário
detecto, no couro, o rasgo
e conserto, e refaço
e subo no salto
e sambo, e sarro
e sempre
e sempre
e sempre que necessário.
sábado, 15 de agosto de 2009
PARA ALÉM DO PRESENTE ou RESPOSTA A UMA FACE LÚCIDA
sonha em ser bombeiro
faz pose no espelho
de herói do século
Em seu quarto pega
um carrinho vermelho
e salva seus bonecos
do suposto incêndio
Sonha sim, menino
que eu te quero tanto
mesmo pequenino
torna-te gigante
***
Aquela menina
sonha em ser cantora
pega uma vassoura
e faz de microfone
Canta pra platéia
de ursos de pelúcia
rodopia e pula
sua pomposa estreia
Sonha sim, menina
que eu te quero bem
mesmo estando aqui
sonha e vais além
***
O jovem formando
quer ser professor
está sempre sonhando
com o dia que o for
Ensaia as palavras
de sua primeira aula
e crê que esta prática
é da ordem do amor
Sonha sim, rapaz
que os teus olhos brilham
e assim inspiram
os que vêm atrás
Sonhemos sim, nós todos
que não é à toa
sonhar é tecer a roupa
que se irá vestir
é cavar o lugar
de onde se irá emergir.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
terás cordeira
sustentando esta cara
de santa e de casta
não contesta
não tenta
e nem encara
Do alto de tua torre
assiste à distância
e dança
dentro de teu louco transe
solitária cordeira
Dizes que tens tudo
e contenta-se com fumaça
pois tudo o que tens, cordeira
não é nada
só relento
e etéreas paisagens
Então é isto, cordeira?
Tranca-te em teu claustro
para tocar tuas toadas.
Mas tuas melodias, cantora
têm uma só nota
e estes teus quadros, pintora
têm uma única cor!
Acorda cordeira
Desça dessa tua redoma
ridícula
e deixe a terra
entrar em teus dedos
deixe a jabuticaba
estourar entre os dentes
Pois a vida, cordeira
é como uma jabuticaba
interior doce e casca amarga
então, tacanha cordeira
levanta
porque para testar do que é doce
terás de suportar o travoso.
sábado, 20 de junho de 2009
Não ter e ter tudo
mas tuas palavras me escorrem
pelo tronco
pelo dorso
pelas coxas
pelo corpo
Não tenho de ti o tato
mas caminho no teu rastro
no teu faro
no teu mastro
quando no chão
minha sombra tem sua marca
Não tenho de ti o rosto
mas te vejo no ônibus
no colo
no solo
e nos olhos
de outros
Não tenho de ti a matéria
mas te sinto na pele
na minha cela
nas mechas
e no vértice
da minha febre
Não tenho de ti o sorriso
mas brinco contigo
te imito
arrisco
palpito
e o admiro
Não tenho de ti o rumo
mas pinto as tuas ruas
o teu prumo
teu sumo
teu suco
e teu lume
Eu não te tenho a ti
e por favor, não me apareça!
Pois não te quero perto
quero-te aqui neste deserto
para gozar-te assim
minha miragem e criação mais que perfeita.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
TEMPO DE DENTRO, TEMPO DE FORA
é uma viola sem corda
é como árvore sem copa
e um ranger de portas
Mas o tempo, ela pensa
lá fora é de prosa
de vinho quente, de côco
quentão e paçoca
Então
ela aquece o corpo na fogueira
e esquece
o acordo das horas
E seu coração
(que bambeia na corda)
dá corda para as cismas
e acorda pra cima.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
VESTINDO OUTUBROS Pocket Zine

é uma publicação conjunta dos blogs Cinco de Outubro e Vestindo Letras
Olá!
Cada vez mais os blogs deixam de ser diários virtuais. Dia-a-dia tornam-se um espaço de idéias e discussões sérias. Há quem viva deles e se não é possível viver de literatura no país, por certo que os blogs podem dar uma mãozinha. A conta é simples e traz questionamentos. O programa Professor Afiliado Submarino chegou a pagar 10% preço de capa ‘pay per click’, mesmo valor que recebe um autor pelo seu original. Já o marketing de guerrilha é capaz de fazer um blog ser acessado por muitos e por todos. Quanto mais tráfego gerado, maior a rentabilidade. A possibilidade de mais pessoas lerem originais ou terem acesso a eles é instigante, principalmente aos novos autores. Mecanismos como o pagerank determinam o grau de importância de cada página na web bem como a credibilidade do texto, que deve passar distante do copia e cola. Algumas editoras já começaram a desbravar este novo mercado, cientes de que um empurra o outro. No caminho inverso, ainda há mais agendas literárias do que blogs produzindo literatura.
Matéria-Prima
por Letícia Mendonça
Vislumbro xícaras vazias
e as letras despertam
O meu auto-retrato
são letras dispersas
Calos e cacos
De letras que apertam
Mas me faço de anzol e de vara
(minhas letras espertas)
Linhas, linhas e linhas
Minha matéria-prima
são letras, espaços e vírgulas.
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Esta postagem foi retirada do blog Cinco de Outubro, de Fernanda de Aragão. Se você quer ter a primeira edição do VESTINDO OUTUBROS Pocket Zine, entre em contato. Ainda dá tempo!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
...
as marcas de sapatos
os sapatos e os passos
os sapatos caros
as caras
e os caras
dos sapatos
Via passar os tênis
e conhecia as cores
e os amortecedores
de todos os tênis
Na via
ele dormia
e via passar os tênis
e os sapatos caros
bem perto
da sua cara
terça-feira, 10 de março de 2009
Pescador que aprendeu a amar
Pescador tá na beira do mar
caducou da canoa virar
fez promessa pra santo pequeno
fez promessa pra Iemanjá
Como a dor que padece no tempo
Pescador que não sabe pescar
A cabocla da saia bonita
tá de banzo, não quer festejar
ao ouvir a sanfona e os risos
se apruma e se põe a dançar
Pescador que passava sozinho
percebeu a cabocla a sambar
"Como pobre que acerta no bicho
tô com sorte, essa eu quero casar!"
Como a dor que padece no tempo
pescador aprendeu a pescar
Construiu casa de pau-a-pique
pra cabocla mais ele morar
o padre abençoou casamento
Iemanjá fez banquete no mar
Como a dor que padece no tempo
pescador que só sabe pescar
a canoa completa de peixe
a esposa cabocla no olhar
Como a dor que padece no tempo
Iemanjá fez banqute no mar
como a dor que padece no tempo
pescador que nasceu pra pescar.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
vinte e dois
tenho a garganta molhada
e os olhos secos
já não me rasgam
as navalhas
já não me embalam
os aplausos
já não me arrasto
contra os pecados
nem os canários
me alargam
já não tenho a mesma fronte
imaculada
às vezes sou vaga
um buraco
um espaço
e me ardo
com meus malabares
saber é carregar os próprios cacos
não sou calada
nem falante
não sou amarga
tampouco amante
Hoje
meus dias são claros
convivo com meus calos
sou como carne
curtida e amaciada
sou uma carcaça curvada
olhando serena para a estrada
avistando à frente
cidades fantasmas
e vou conformada
carregando a minha mala
não me importam
as imagens
não aposto
nas miragens
não imploro
por regalos
e carícias
Mas hoje
direi bem alto e sem embaraço
FELIZ ANIVERSÁRIO,
LETÍCIA!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Adeus Universo
refletiam sua força
sua faculdade
sua fome
Aquela universidade de tons
refletia sua fronte
sua fama
suas pontes
Aquela universidade de cheiros
refletiam seu leito
seu jeito
seu pleito
Aquela universidade de cores
refletiam suas dores
seus rumores
seus amores
Aquela universidade de templos
refletia seu nascimento
seu crescimento
seu tempo
Aquela universidade de prédios
refletiam seu tédio
seu elo
seu ego
Aquela universidade de livros
refletia seu riso
seu rito
seu viço
Aquela universidade de luzes
refletia sua juventude
seu lume
seu cume
Ela olhou aquele marco
acenou um adeus amargo
largou as amarras do passado
e regozijou independência!
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Barro
Nesses peitos de barro
da negra e do branco
Misturando almas
no abraço
Pára e repara
No pálido joelho barro
Da senhora que ora
Olhando para o alto
Pára e repara
Nessas lágrimas de barro
Que lavam a face
Da mulher de grinalda
Pára e repara
Nas cálidas mãos de barro
Que marcam de grãos
Engravidando o arado
Pára e repara
Nos pardos olhos barro
Da criança magra
Fixados
Em verdes mangas penduradas
Pára e repara
Nos pés de barro na estrada
Suportando calos
Deixando para trás
O árido
Pára e repara
Nos maltratados dedos barro
Que tábua por tábua
Levantam o barraco
Preparam sua morada
Pára e repara
Nesses braços de barro
Que arrastam o barco
Lançando-se ao mar
Atrás do pescado
Pára e repara
Nas gargantas de barro
Que diante do fato
Gritavam nas calçadas:
- Barack, Barack!
Pára e repara
Nesse humano que é barro
Um barro moldado
Moldado na esperança.