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quarta-feira, 10 de junho de 2009

TEMPO DE DENTRO, TEMPO DE FORA

Este tempo interno de silêncio noturno
é uma viola sem corda
é como árvore sem copa
e um ranger de portas

Mas o tempo, ela pensa
lá fora é de prosa
de vinho quente, de côco
quentão e paçoca

Então
ela aquece
o corpo na fogueira
e esquece

o acordo das horas

E seu coração

(que bambeia na corda)
dá corda para as cismas
e acorda pra cima.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O LEVANTE

O desconhecido me deu um tiro

nocaute



o disco vencido perdeu-se no lixo

nocaute



o descomprometido ardeu em seu vício

nocaute



o destemido esqueceu o sorriso

nocaute



o desmedido escorreu para o limbo

nocaute



o desperdício doeu em meu timo

nocaute



Cara na lona, de novo



mas eu:

nunca depressão

às vezes morro

e sempre pico

(a minha mula).

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

VIDA NA VARANDA

Havia vida na valsa
vinda da vizinhança
Ela ouvia
e o vento
uivava

Havia vida no vestido
de fitas vermelhas
Ela o vestia
e o vento
o esvoaçava

Havia vida no verde
da folha flutuante
Ela varria
e o vento
a levantava

Havia vida na vela
evocando o divino
Ela em vigília
e o vento
acompanhava

Havia vida nas fotos
convocando a infância
Ela, formiga
e o vento
a acariciava

Havia vida no ventre
da jovem na varanda
Ela comovida
e o vento
a amava.

domingo, 24 de agosto de 2008

Escrever é combinar palavras

Parapalademora
Paem noitelavraclara
PalavrapalavradeCLARA

Para regra
Paladepalavrsucessos
palavrapalavrREGRessos

Parapalaapalavrmaçã
paladepalsaboravraeterno
palavrapalavrapalavrmaTERNO

Para ir do camuflar
palaaoavrsairapaldoavraninho
palavrapalavrapalavrapalavrcamINHO

Para escape
palavourapalcolha
palavrapalavresCOLHA

Para providência
palavrapaldeavracura
palavrapalavrapalavproCURA

Para ser estrela
palavraparenomada
palavrapalavrlavestrADA

Parapalavcompor
Paospameuspalpassos
palavrapalavrlavcomPASSOS

Para coroar
paapalavviagem
palavrapacorAGEM

Para ir da miséria
Palaàpalavrapaconcórdia
palavrapalavrlavmiseriCÓRDIA

Para o alívio
Padopalsofrimento
palavrapalaaliMENTO

Para caridade
Palavrapaepala
palavrapalavrlacaFÉ

Para o comércio
palavdapalavrvida
palavrapalaCOMida

Para a cidade
palaopalfermento
palavrapalciMENTO

Para especular
palaopalcentelho
palavrapespELHO

Para miraculosa
Palavrapalimagem
palavrapamirAGEM

Para o deleite
Paladospallírios
palavrapDElírios

Para cada versão
palavepalcomunidade
palavrapalavrlaVERdade

Para melhorar
Palavrapopaladia
palavrapaMELoDIA

Para meu canto
paldepalpalantiga
palavrapalavcANTIGA


Para os pares
Palavdepallendas
palavrapalaPARlendas

Para acalmar
Palaopalrebento
palavrapACALento

Para este corpo
Palavrapalamestiço
palavrapalavrlCORtiço

Parapalunir
Pacompopverso
palavrapuniVERSO

Parapalacorar
Pminhaspalaações
palavrappacorAÇÕES

E para combinar palácios
Palavrapepalminhaspallavras

palavrappalavrappalpaLAVRAS

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Hoje, só

Hoje, quero andar só
sentir o sol
sentar sobre a pele
o assobio do vento
sem contar o tempo
assistir o dia passar sonolento
e, ao primeiro bocejo
voltar pro lençol

Hoje, vou ganhar a cidade
vou entrar no cinema
às quatro da tarde
vou contemplar os pássaros
os lagos, os lares
os mares de carro
e degustar Saramago

Hoje, na casa da amiga
vou, de longe, vê-la
mas sem ser vista
só pra ter certeza
que ainda existe

Hoje, vou seguir a luz da lua
passar pelos bares
subir largas ruas
sentar em alguma mesa
inventar-me estrela
trombar desconhecidos
semear meu sorriso
e colher mais amigos

Hoje
serei só sincera
sincera comigo
comigo e

terça-feira, 6 de maio de 2008

BOLA

É pele com pele,
É aperto de mão,
Platéia aplaudindo de pé,
Serpentina, samba e salão.
É pérola em exposição.

Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, quantas histórias!

É pai observando o parto,
Público e primavera no parque.
Balões e palhaços.
É a beata e o padre,
E do bebê, os proimeiros passos.
É o planeta debaixo dos braços.

Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, tantas histórias.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O pintor e a bailarina

Da platéia, o pintor observou a bailarina.
Cobiça.
Procurou-a e acompanhou-a num passeio.
Copos, bebidas, beijos.
Pliés e pincéis combinavam-se com perfeição.
Corpos em brasa. Paixão.
E embebidos pelo prazer da empolgação
Poemas,
Promessas,
Expectativas,
Problemas.

O pintor parou, pintou e partiu.
E a bailarina abandonada,
No abismo da paixão inacabada,
Petrificou-se em poesia: uma pintura desbotada.