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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ETERNIZAR *

Para eternizar pálidas lágrimas
Para eternizar olhares cansados
Para eternizar cores e flores
Para eternizar momentos
e amigos amados

máquina em punho
e o mundo fotografado.

Fotografo a lá minute
Olhó passarinho

________________________
* poema express, escrito para acompanhar o presente da amiga (ex) secreta Aurilene, que tem um hobby.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lua

Seu sussurro de soberana
semeia
alucina
assombra

Seu sussurro de segredos
assume a cidade
nua
cidade sua

Seu sussurro macio
sobe os céus e as ruas
cintila
sonda
assusta

Seu sussurro seco
feitiços de cigana
suga o suco
do sereno

Seu sussurro no silêncio
atravessa os sonhos
assola
o avesso do sossego

Seu sussurro sem censura
expressa e merece mesura
musa lúcida
suave fissura

Seu sussurro pulsa
e sinto renascer-me assim
sempre nova
sempre crescente
sempre
Lua

____________________________
Este poema também se encontra no site www.jornalirismo.com.br.
Dê uma passadinha por lá e confira! Vale a pena.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

BRUXA À SOLTA

Uma dorzinha na ponta do dedão logo de manhãzinha já avisava que o dia seria negro. E não dei ouvidos. No almoço, aquela companhia desconfortável, e a farofa que não descia goela abaixo. Silêncio e meditação, uma boa pedida. Mas eu gostaria mesmo era de alguma viagem ao centro da Terra. Minas Gerais, Salvador. Outro dia sonhei. Subia e descia ladeiras chão de paralelepípedo. Cidade calma, bonecos mamulengos sentados na frente das casas, como no interior. Vendo o dia passar sem pressa nem urgência. Estavam sorrindo e me convidando a entrar e ficar. Mas aqui? Não! Aqui é ontem. Quando não antes de ontem. Nunca vi um hoje que fosse hoje. Talvez na infância.
Mas agora está tão longe que parece até futuro.
E sentei na frente do computador. Tarefas, e-mails, e as esperadas respostas: zero. Abri o cronograma. Surpresa! Era pra ontem! Agora foi-se tudo por água abaixo. Juntei uma citação aqui, uma frase bonita acolá. Google acadêmico, mas nada que prestasse. E reza para Iemanjá, mãe da criação. Odoyá minha mãe! Que preciso de criatividade. Fluiu. Ou deu pro gasto, melhor que nada!
Janela do msn pula. A amiga dizendo pr'eu ligar pra ela mais tarde. Tá com o parente doente. Claro! Sempre apostos, a melhor amiga dos amigos. Hora do inferninho. O combinado não saiu caro, mas foi pro ralo. Prova chegando, e estudar é luxo. "Temos que nos reunir", diz a outra. O trabalho é pra semana que vem! Falar de trabalho? Qual o quê! Variados assuntos na mesa das princesinhas. O stress latejando bem na garganta. Era mesmo vontade de gritar. Segurei e assisti. Finalmente em casa. Hora de ligar pra amiga. E adivinha? Cadê meu celular? Perdi! Perdi meu celular nada de playboy!
Uma risada maligna! Soprei com a garganta. Mas saiu alto! E a vontade de quebrar os cristais!
Hoje, o dia foi das Bruxas!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O LEVANTE

O desconhecido me deu um tiro

nocaute



o disco vencido perdeu-se no lixo

nocaute



o descomprometido ardeu em seu vício

nocaute



o destemido esqueceu o sorriso

nocaute



o desmedido escorreu para o limbo

nocaute



o desperdício doeu em meu timo

nocaute



Cara na lona, de novo



mas eu:

nunca depressão

às vezes morro

e sempre pico

(a minha mula).

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

VIDA NA VARANDA

Havia vida na valsa
vinda da vizinhança
Ela ouvia
e o vento
uivava

Havia vida no vestido
de fitas vermelhas
Ela o vestia
e o vento
o esvoaçava

Havia vida no verde
da folha flutuante
Ela varria
e o vento
a levantava

Havia vida na vela
evocando o divino
Ela em vigília
e o vento
acompanhava

Havia vida nas fotos
convocando a infância
Ela, formiga
e o vento
a acariciava

Havia vida no ventre
da jovem na varanda
Ela comovida
e o vento
a amava.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

TILIN-TIN

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
tilin-tin
noite e dia

tilin-tin
de mansinho
e a beata
desvia

tilin-tin
sol a pino
e a companhia
canina

tilin-tin
com preguiça
e o empresário
se esquiva

tilin-tin
repetido
na barra
do bispo

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
tilin-tin
noite e dia

tilin-tin
reprimido
e o cheiro
de vinho

tilin-tin
pouco tímido
e careta
do cínico

Tilin-tin
bem baixinho
e o amarelo sorriso
do doutor político

Tilin-tin
oprimido
e o pão repartido
aos senhores da missa

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
no alumínio
do mendigo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

NOSSA DERROTA ou POESIA É OFERTA

Se o poema pede pausa
se o problema do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
pra pintar o céu de preto
pra partir o próprio espelho
e apagar pétalas raras

Se o poema pede pausa
se a alegria do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
para perfumar o esterco
para arrepiar os pêlos
e pra pintar as próprias asas

Mas, e o leitor?
não percebeu?
Então
(que pena)
a poesia se perdeu.

domingo, 24 de agosto de 2008

Escrever é combinar palavras

Parapalademora
Paem noitelavraclara
PalavrapalavradeCLARA

Para regra
Paladepalavrsucessos
palavrapalavrREGRessos

Parapalaapalavrmaçã
paladepalsaboravraeterno
palavrapalavrapalavrmaTERNO

Para ir do camuflar
palaaoavrsairapaldoavraninho
palavrapalavrapalavrapalavrcamINHO

Para escape
palavourapalcolha
palavrapalavresCOLHA

Para providência
palavrapaldeavracura
palavrapalavrapalavproCURA

Para ser estrela
palavraparenomada
palavrapalavrlavestrADA

Parapalavcompor
Paospameuspalpassos
palavrapalavrlavcomPASSOS

Para coroar
paapalavviagem
palavrapacorAGEM

Para ir da miséria
Palaàpalavrapaconcórdia
palavrapalavrlavmiseriCÓRDIA

Para o alívio
Padopalsofrimento
palavrapalaaliMENTO

Para caridade
Palavrapaepala
palavrapalavrlacaFÉ

Para o comércio
palavdapalavrvida
palavrapalaCOMida

Para a cidade
palaopalfermento
palavrapalciMENTO

Para especular
palaopalcentelho
palavrapespELHO

Para miraculosa
Palavrapalimagem
palavrapamirAGEM

Para o deleite
Paladospallírios
palavrapDElírios

Para cada versão
palavepalcomunidade
palavrapalavrlaVERdade

Para melhorar
Palavrapopaladia
palavrapaMELoDIA

Para meu canto
paldepalpalantiga
palavrapalavcANTIGA


Para os pares
Palavdepallendas
palavrapalaPARlendas

Para acalmar
Palaopalrebento
palavrapACALento

Para este corpo
Palavrapalamestiço
palavrapalavrlCORtiço

Parapalunir
Pacompopverso
palavrapuniVERSO

Parapalacorar
Pminhaspalaações
palavrappacorAÇÕES

E para combinar palácios
Palavrapepalminhaspallavras

palavrappalavrappalpaLAVRAS

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Poema dos meus sentimentos hoje

Vi um sino sem tino
xícaras vazias
fantasias destruídas
e um tico-tico encolhido no ninho

Vi uma menina aos gritos
sorrindo e pedindo ouvidos
Vi uma formiga
proferindo-se diva

Vi uma víbora adormecida
vingativa, se ferida
ressentida

Vi lírios oníricos
de raízes rígidas na brisa da caatinga
e preguiça

Vi um paraíso colorida
abrigo de risos
e desatinos

Vi um trilho firme
possível destino prometido:
o pico

Vi brincos reluzindo
tinindo
um vestido carmim
em melodia intimista

Vi uma aprendiz
descobrindo cifras
vilas
línguas
cantigas

Vi, ouvi e senti
Letícia

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Hoje, só

Hoje, quero andar só
sentir o sol
sentar sobre a pele
o assobio do vento
sem contar o tempo
assistir o dia passar sonolento
e, ao primeiro bocejo
voltar pro lençol

Hoje, vou ganhar a cidade
vou entrar no cinema
às quatro da tarde
vou contemplar os pássaros
os lagos, os lares
os mares de carro
e degustar Saramago

Hoje, na casa da amiga
vou, de longe, vê-la
mas sem ser vista
só pra ter certeza
que ainda existe

Hoje, vou seguir a luz da lua
passar pelos bares
subir largas ruas
sentar em alguma mesa
inventar-me estrela
trombar desconhecidos
semear meu sorriso
e colher mais amigos

Hoje
serei só sincera
sincera comigo
comigo e

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Os bambas

Diagnóstico

Fui ao Doutor
Me consultar
Ele me levou ao raio X
Boa amiga eu não quero lhe desgostar
Mas você tem uma saudade no peito
Só o tempo é que pode lhe curar

Eu sinto muito
Mas não há remédio
Pra combater esse malvado tédio
O micróbio da saudade é remitente
Custa muito abandonar o coração da gente

A medicina está muito avançada
Mas no seu caso não adianta nada
É incurável a sua enfermidade
Não há remédio pra curar uma saudade

A música acima é de autoria de Wilson Batista, em parceria com Germano Augusto. Foi enviado por e-mail pelo meu amigo Léo, que faz parte do PSTM (Projeto Samba de Terreiro Mauá), que foi fundado em 23 de dezembro de 2002. Um grupo que "luta contra as 'padronizações culturais'" e que valoriza o samba de raiz. O grupo também possui um blog, no qual discorre sobre a vida e obra dos nossos bambas. Vale a pena dar uma conferida e curtir o autêntico samba brasileiro.
Abraços,
Letícia.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Manhã de Sol

Manhã de sol
na fazenda, a brisa serena
minhas mãos trêmulas, seu assobio faceiro
e nosso passeio
na plantação de girassol

Assustei com o lençol
quando, de súbito
acordei sorrindo
sonhando
com a manhã de sol.

terça-feira, 17 de junho de 2008

No olhar

Olhou o lustre
Lembrou-se dos balões no lençol

Olhou o balanço na laranjeira
Lembrou-se do calor e das gargalhadas

Olhou o trilho e a locomotiva
Lembrou-se do barulho das cólicas

Olhou os livros empilhados na sala
Lembrou-se das lições escolares

Olhou as pétalas orvalhadas
Lembrou-se das lágrimas nas aulas elementares

Olhou as ovelhas e os cavalos
Lembrou-se das luvinhas de lã

Olhou a louça de porcelana
Lembrou-se dos lábios lambuzados de leite

Olhou as alamedas enlameadas
Lembrou-se dos cabelos molhados e das molecagens

Olhou o relógio
Lembrou-se das fábulas lunares

Olhou os lírios, lúcidos e leves
Lembrou-se da pele lisa na pele

Olhou os óculos, translúcidos e largados
Lembrou-se dos cílios alourados

Olhou os azulejos amarelados
Lembrou-se dos lápis a colori-los

Olhou o velho violão
E lembrou-se, ao dedilhar
das letras na lápide do filho
e a melodia lavou-lhe o olhar

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Caminhos e Crenças

Acreditei nas cores e nas constelações
Encontrei gados agonizantes
Acreditei nas graças
Encontrei-me nos pecados
Acreditei no gozo da vingança
Encontrei comida na carne do cacto
Acreditei na riqueza e na elegância
Encontrei-me mendiga, cuidei de criança
Acreditei em milagres, converti-me em castidade
Encontrei o capeta, brinquei com a caveira
Acreditei nos cometas
Encontrei grutas e escuridão
Acreditei nas cascatas e cachoeiras
Encontrei séculos de seca
Acreditei em conversas de amigos
Encontrei compromissos e enganação
Acreditei na construção da casa
Encontrei-me grávida e desacompanhada
Acreditei no canto do canário
Encontrei encanto nas madrugadas
Acreditei nas longas cavalgadas
Encontrei encruzilhada e pororoca
E, quando acreditei-me gigante e completa
Encontrei-me aqui, crua e caótica

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Eu e minha natureza

Quem sabe abismo?
Quem sabe ouriço?
Quem sabe relva?
Ou quem sabe floresta?
Quem sabe rosa ou violeta?
Ou quem sabe apenas glúteos, vulva e tetas?

Quem sabe diamante?
Quem sabe vento frio e cortante?
Ou quem sabe, mormaço e brisa?
Quem sabe boca, pêssego e saliva?
Quem sabe deserto, urubu e carniça?

Quem sabe petróleo? Quem sabe gruta?
Quem sabe semente e plantação?
Quem sabe cume, ou estrume?
Quem sabe mato e formigueiro?
Ou quem sabe arco-íris e constelação?

Quem sabe, oh céus, o que eu sou?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Ontem ouriço,
Hoje, golfinho!

Ontem deserto.
Hoje, floresta.

Ontem abismo.
Hoje pico!

Ontem caverna, nevasca.
Hoje, constelação e cascata.

Ontem fóssil
Hoje, esmeralda.

Ontem cratera
Hoje montanha!

Passou o tempo,
Cresceu a menina.
Germinou a semente!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Quer-er-ia

Queria a boca e a língua
Queria a saliva, queria os lábios
Queria o calor da pele
As pernas e os pêlos suados.

Queria o pulso dos quadris
E as pupilas dilatadas
Queria a cintura,
Glúteos e seios em suas mãos
Queria o hímen e a vulva
E queria à distância o coração.

domingo, 1 de junho de 2008

Eu comi a poeira das tuas palavras feitas de brinquedo.
Como um jogo dramático, é a sua vida.
Água de côco extraída de uma pedra!
E me pergunta se está tudo bem. Claro! É claro que está, e desde quando você deixou a capa ou aquela velha máscara de papai noel cair... é claro que está tudo... uma grande merda!
Mas você queria que fizéssemos o seu jogo, não é mesmo?!
E se assim fosse, eu diria que o meu travesseiro está úmido por causa da toalha molhada que deixei em cima. Diria que bebo apenas socialmente, e o faço para saborear a bebida, ou para refrescar do calor.
Diria que estes berros que você ouve à noite não saem da minha boca, mas de algum bêbado cantando suas angústias pela madrugada.
Ah, e este vômito pelo chão? O cachorro da vizinha entrou aqui e comeu algo estragado!
Esta minha expressão amarrada? Meu corpo todo contraído, rígido? Cólica!

Ah, se nós fizéssemos o seu jogo! Diríamos que as mãos estão esfarelando e apodrecendo por conta de uma pequena alergia! Diríamos que estas marcas nos punhos não passam de maquiagem para uma peça teatral.
Nós não ligamos porque o telefone ficou sem bateria! Não viajamos porque tive alguns compromissos acadêmicos!
Desliguei o telefone na sua cara? Nãããoo! Foi o gato que passou e pisou no gancho do telefone!
Ah, mas nós nem temos gato? Poxa!

Mesmo assim estaria tudo bem pra você, não é mesmo?!
E agora, que tal aquela bela foto, com todos muito sorridentes pra você poder mostrar pra todo mundo?! Mostrar como você é ótimo, não é?

Mas eu estou cansada!
Cansada de ter que fazer malabarismos para conseguir um único fio de trapo!

Não vou mais secar as minhas tripas sozinha!
Vou abrir o seu estômago e dissecar as suas tripas, e jogá-las na tua cara para mostrar o quanto fedem!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ele, presa dos quereres
Presa dos desejos
Presa de tormentos
Preso em seus segredos.

Ele, presa das ausências
Presa da carência
Presa dos erros
Preso no beco do silêncio
Preso em escrever ao vento.

Ele, de cegueira enrijeceu no tempo
E apodreceu no esquecimento.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Murmúrios




Procuro cura, fortuna,
Uso culpa, ataúde.

Procuro fartura, bússola,
Uso mula suja.

Procuro luz, rumo,
Uso tumulto noturno.

Procuro perfume,
Uso musgo.

Procuro luxo, pintura,
Uso estrume, suja postura.

Procuro lua,
Uso loucura.


Bruto casulo,
Caricatura confusa.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Valsa, sabiá

Valsa no ar sabiá, em casta liberdade
Liberdade vasta na amizade
Amizade larga de abraços
Abraços, dádiva de laços
Laços, lágrimas e gargalhadas
Gargalhadas cálidas nas faces
Faces calmas, paz ensolarada
Ensolarada tarde, o sabiá valsa
Valsa em homenagem à amizade.

domingo, 11 de maio de 2008

A carta

Uma carta presente.
Mas como começá-la?
Eu poderia lembrar de várias passagens de nossas vidas, como as festinhas escolares em que você nunca deixou de comparecer!
Poderia lembrar das nossas viagens em família na cama voadora. Ou, da casa branca e das meninas pobres que passavam pedindo água enquanto você lavava o quintal. E eu, ciumenta!
Eu poderia colocar as nossas noites em que assistíamos novela juntas, e em que nós duas acreditávamos que eu era a Ana Raio.
Poderia colocar a minha falta de vontade de ir para a escola com os meus poucos três anos de idade, e você, numa larga risada, dizendo que eu fugi. E eu montava uma cena curiosíssima, na qual eu (um bebê) escalava e pulava o muro e saía correndo, no filme chamado "a fugitiva".
Poderia lembrar de quando você me fez ir pedir desculpas na escola para as professoras por ter cometido um ato, digamos, desumano.
Poderia lembrar das musiquinhas, uma para cada situação: "tá com frio, bate a bunda no rio; tá com calor, bate a bunda no tambor" (para a hora do banho). Ou "salve D. Pedro II, salve D. Pedro II" (quando o mertiolate ardia no machucado).
Ou da pergunta costumeira, cuja a resposta eu nem faço idéia de onde tirei:
Você: - Quem é você?
Eu: - Letícia!
Você: - E pra quê serve uma Letícia?
Eu: - Para amar!

Poderia colocar o seu empenho para que eu e meus irmãos fizéssemos as mais diversas atividades, e tivéssemos a melhor formação possível.
Poderia colocar as nossas conversas atuais, entre duas mulheres que falam da vida, das expectativas, das vivências, das verdades de cada uma.
Verdade que, por sinal, sempre foi sua marca, e que é o seu nome! E, graças a você, foi assim que crescemos. Valorizando a verdade. Porque você sempre deixou tudo às claras, sem meias verdades, sem evitar qualquer assunto.
Poderia colocar as risadas, as lágrimas, as broncas, os carinhos.
Nossa...eu poderia colocar tanta coisa!
Mas o que a minha memória insiste em me jogar na cara, é a lembrança daquela pergunta que você me fazia em dias como hoje: "o que você vai me dar de presente?"
E eu, sem dinheiro e, portanto, sem possibilidades de atender aos pedidos do consumismo, e por desde sempre acreditar que as letras poderiam ser o presente mais sincero, respondia seriamente: "a carta!". Eu nem sabia escrever ainda!
Você, orgulhosa, saía contando aos quatro ventos!

É...e aqui está a sua carta (mais uma entre as várias). Escrevo para agradecer o respeito, o carinho, o amor, a dedicação, os "petelecos", os ensinamentos, a sensibilidade, os valores, tudo!
Agradecer a você, minha mãe, mulher forte, voz grossa, cara de brava e coração mole. Mulher que sempre foi dona de si mesma; mulher família; inteligente; mulher independente. Mãe amorosa, defendendo seus filhos sempre com unhas e dentes, mas sem passar-lhes a mão nos cabelos, quando errados.
Uma mulher que merece a minha admiração e a de tantos outros que tiveram a oportunidade de conhecer!

Com letras sinceras de amor,
Letícia.

E parabéns a todas as mães!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Letras negras



Insônia. A noite é gelada e não tem mais ninguém em casa. Não tem mais ninguém nas ruas, nem ninguém na cidade. O planeta parece estar deserto. Nenhum ruído.
Ela se encolhe no canto da mesa. Acende um cigarro.
Ainda tem café na garrafa. Ela se serve, mesmo estando quase frio.
E come... o cigarro.
À sua frente, uma caneta e uma folha de papel. São suas armas.
Compulsivamente, ela vomita no papel: uma mistura de sangue, café e cigarro. Letras negras.
Letras denunciando o quanto ela sente nojo dele.
Nojo da língua quente dele a passear pela sua boca. Nojo daquelas mãos grosseiras arrancando suas roupas. Nojo daqueles braços forçando a abertura de suas pernas, e daquele quadril se impondo sobre o dela, como se fosse um lobo faminto avançando na carne fresca. Bruto e rápido, deixando a sujeira espalhada e indo embora sem dizer adeus.
E ela sente nojo de seu próprio corpo, que agora treme por conta da lembrança. Nojo de si mesma, por necessitar tanto dele.
Ela olha para baixo e vê suas pernas apodrecerem. Come outro cigarro.
Levanta e se olha no espelho. Figura tuberculosa.
Duas crateras no lugar de olhos. Um prazer imenso corre pelas suas veias, que carregam um líquido preto.
Solta uma gargalhada seca.
Porque agora, ela é só prazer!
Prazer em imaginar o rosto dele, quando, na próxima visita efêmera, encontrar o seu cadáver acinzentado e o papel jogado ao lado, dizendo "a culpa é sua".

terça-feira, 6 de maio de 2008

BOLA

É pele com pele,
É aperto de mão,
Platéia aplaudindo de pé,
Serpentina, samba e salão.
É pérola em exposição.

Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, quantas histórias!

É pai observando o parto,
Público e primavera no parque.
Balões e palhaços.
É a beata e o padre,
E do bebê, os proimeiros passos.
É o planeta debaixo dos braços.

Pula, passa, pinga a bola.
E na memória, tantas histórias.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O guarda-chuva eu dispenso!

Sim! Definitivamente, está chovendo há tempos.

Do seu início eu nem me lembro. Talvez tenha sido junto com o meu nascimento.
Quem sabe quando eu aprendi o que significavam? Ou quando eu aprendi que elas me significavam!

É que agora, mais do que nunca, chovem letras onde me encontro.
E não me faço de rogada! Peito aberto, eu corro de encontro.

Primeiro, elas vêm de fora para dentro, e de maneira diversa.
Existem as letras que me entram pelos ouvidos e que me fazem lembrar que tenho um corpo dançante.
Estas bailam pelo ar e, quando fecho os olhos, é como se eu pudesse tocá-las. Em resposta, elas me arrepiam os pêlos pela superfície dos poros.
Existem as letras pés descalços e chão de barro, que me entram pelo olfato trazendo cheiro de mato.
Existem as letras luxuosas, top model, salto alto. Estas que usam batom vermelho, rímel e espelho.
Outras, ainda, são dentes à mostra e cócega no estômago.
Há também as letras revoltadas, que empinam suas bandeiras como pipas em céu azul de verão.

Letras, letras, letras. Sempre me agradaram.
Mesmo quando as minhas ainda eram garatujas, já contavam as coisas do mundo.
E agora elas chovem de dentro para fora, cada vez com mais gosto. E molham meu rosto. E gotejam sem jeito. E entregam meu peito.
E eu aproveito.

Pois, em chuva de letras, o guarda-chuva eu dispenso!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Poema Metaforizando (sem título)

Ele era o retrato da cadeira vazia
Coberta de lágrimas frias
Sempre calado e cheio de manias.
E a via como a bandeira da camisa aberta
Porta macia para as grandes descobertas.
Explicava e caminhava
Como um par de brincos reluzentes
E ele observava. Estrada de terra crescente.
Ardente.
Aluno atônito. Platônico.

Foi chamado para o exercício.
E no sacrifício, lutava para afogar a criança amordaçada
Que em seus olhos gritava.
Agitava as mãos trêmulas, suadas
E cadê as palavras?

Foi quando sentiu a mão em seu ombro
Um sol quente na pele escorria por todo o corpo
E como mágica, em um sopro
Pronunciou calmamente.
-Correto. Ouviu de repente
E com as bochechas rosadas do sucesso
Saiu da sala com o mundo de mãos dadas
Com o semblante da professora e suas palavras
Nadando em um mar de guarda-sol amarelo.


segunda-feira, 21 de abril de 2008

O pintor e a bailarina

Da platéia, o pintor observou a bailarina.
Cobiça.
Procurou-a e acompanhou-a num passeio.
Copos, bebidas, beijos.
Pliés e pincéis combinavam-se com perfeição.
Corpos em brasa. Paixão.
E embebidos pelo prazer da empolgação
Poemas,
Promessas,
Expectativas,
Problemas.

O pintor parou, pintou e partiu.
E a bailarina abandonada,
No abismo da paixão inacabada,
Petrificou-se em poesia: uma pintura desbotada.

sábado, 19 de abril de 2008

Lua Cheia


O céu estava de um azul que convidava ao mergulho.
Mas e o que ela faria com o medo?
Foi quando a Lua interveio.
Cheia,
Plena,
Imponente.
Falou com sua voz branca e branda de sabedoria:
"Não fique esperando pelo grande evento! Seja você mesma o melhor evento.
E verás como até o vento assobiará só para ver seus cabelos voarem!"
E ela fez de si mesma uma festa constante, uma estrela brilhante, e morou no céu como uma lenda!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Poema aliterando P

O pequeno Paulo,
Pimpolho esperto,
Empinava pipa
Na pedra polida
E o pai, preocupado,
Preparou, de palmito,
Uma primorosa pizza.

sábado, 5 de abril de 2008

Sol

Na sombra solitária e segura
Morava eu, estrela apagada e escura
Sobrecarregada de mágoas e suturas.

Sentindo acariciar a pele e os pêlos
O sol quente quebrando o gelo
Amolecendo a pedra e afugentando o medo
Acordei para me apossar da vida (minha).

De um sopro para o meu lugar
Ressuscitei assim
Quando encontrei o sol do seu olhar.

sábado, 15 de março de 2008

Momento.

Ele apareceu sem chamar atenção. Naquele momento, não passava de um estranho pouco interessante!

Foi ao longo do dia que foi construindo um espaço para si mesmo. Era como uma estrela que brilhava quando seus olhos tocavam nos dela. E aquilo foi crescendo.

Ímã que atrai, mesmo tendo os pólos iguais;

Um mundo de possibilidades trocado naqueles olhares. Poucas palavras, muita solidão.

E quando a mão dele tocou na cintura dela o mundo se dividiu, com um tempo só para os dois e outro paralelo para o resto insignificante do que havia de resto.

Os olhos dela lacrimejaram de desejo, acompanhando a gota de suor que percorreu toda a sua espinha dorsal. As células de seu corpo se agitavam em um mundo de águas que agitavam outras águas.

E projetando um futuro certo, no mesmo instante em que aqueles dois mundos se conectavam na superfície da mão dele com a cintura dela, ela via os dois se amando como se há muito haviam prometido.

Via a cena dos dois na cama, entre lençóis de seda, e a mão dele escorregando da citura para os quadris, e depois para a parte posterior das coxas. Via os corpos trocando suores e ardores de duas vidas premeditadas.

E depois, já na calma do corpos satisfeitos, ela via os seus seios de mãe oferecerem um abrigo para a cabeça e os conflitos de um garoto amador, no abrigo que seria a verdade de duas criaturas sem passado. Abrigo nu, mas vestido de glórias.

Via tudo isso em um instante infinito, dizendo-lhe com o olhar e com a pele que, o que ele procurava, acabara de encontrar.

Mas ele não entendeu!

Desconectou sua mão da cintura dela, fazendo-a entrar em uma queda sem fim, no silêncio de um mar tempestuoso, de um abismo sem chão, de um vazio e uma falta que se instalavam mesmo em seu corpo.

Ele não entendeu, mas sentiu, e teve medo!

Teve medo e se foi, em busca de outra mentira qualquer.

terça-feira, 4 de março de 2008

Fuga

As mesmas conversas cansadas,
As mesmas palavras cifradas,
Silenciosamente disfarçadas, sem vida e sem graça!
À minha frente, uma dança de bonecos
brincando de repetir.
Repetição que não ilude mais!
Que não mora mais e nem destrói mais!
O sentido se esvaziou quando deixei de sentir!

Preciso calar em outro abismo.
Em um espaço que não tenha a minha cara estampada,
Mas que seja a sombra do meu rosto!
Que tenha meu jeito, o meu gosto!
Qualquer canto em olhar desconhecido.

E que este lugar me mostre as velhas cores inéditas,
Que me seduza com cheiro de maçã verde,
Com inverdades macias, fantasias intrépidas.
Que me devolva a minha saudade perdida,
Não pertencente ao tempo, mas à vida.

Para preencher o meu lugar de vazio,
E para reiniciar a minha busca,
Esperançca renovada em fuga!

Pois a morte, quando mal feita, torna-se conpanhia do sempre.
E já não suporto mais essa minha sombra dentro de mim mesma!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Dama de Rosa

Ela foi a peça mais rara de toda a noite.
Dançando e cantando como se não fosse mais a menina sonolenta e medrosa das ruas sem casas, chamou atenção pelo seu ir e não vir que faz parte do seu novo eu. Novo eu que retorna ao passado, a um olhar sem culpa e sem desculpas.
Quem retorna da guerra sem histórias e sem marcas é porquê ainda está na guerra!

Mas a Dama de Rosa não!
Trouxe nas mãos a corrente manchada com o sangue de seus inimigos invisíveis para colocar na parede, como um troféu.
E não é disso que ela se vale?
Sim! E se vale muito bem!

Agora ninguém mais pode pará-la! Ela vai atingir o apse, até que um tombo lhe ponha no chão!
Mas sua força reerguerá a cabeça insolente e orgulhosa e lhe colocará em marcha de novo! Rumo à vitória de uma nova guerra!

Mas enquanto isso não acontece, ela vai beber no cálice das vaidades obedecidas, e vai ser a mais bela de todas as damas, a Dama de Rosa.