Uma carta presente.
Mas como começá-la?
Eu poderia lembrar de várias passagens de nossas vidas, como as festinhas escolares em que você nunca deixou de comparecer!
Poderia lembrar das nossas viagens em família na cama voadora. Ou, da casa branca e das meninas pobres que passavam pedindo água enquanto você lavava o quintal. E eu, ciumenta!
Eu poderia colocar as nossas noites em que assistíamos novela juntas, e em que nós duas acreditávamos que eu era a Ana Raio.
Poderia colocar a minha falta de vontade de ir para a escola com os meus poucos três anos de idade, e você, numa larga risada, dizendo que eu fugi. E eu montava uma cena curiosíssima, na qual eu (um bebê) escalava e pulava o muro e saía correndo, no filme chamado "a fugitiva".
Poderia lembrar de quando você me fez ir pedir desculpas na escola para as professoras por ter cometido um ato, digamos, desumano.
Poderia lembrar das musiquinhas, uma para cada situação: "tá com frio, bate a bunda no rio; tá com calor, bate a bunda no tambor" (para a hora do banho). Ou "salve D. Pedro II, salve D. Pedro II" (quando o mertiolate ardia no machucado).
Ou da pergunta costumeira, cuja a resposta eu nem faço idéia de onde tirei:
Você: - Quem é você?
Eu: - Letícia!
Você: - E pra quê serve uma Letícia?
Eu: - Para amar!
Poderia colocar o seu empenho para que eu e meus irmãos fizéssemos as mais diversas atividades, e tivéssemos a melhor formação possível.
Poderia colocar as nossas conversas atuais, entre duas mulheres que falam da vida, das expectativas, das vivências, das verdades de cada uma.
Verdade que, por sinal, sempre foi sua marca, e que é o seu nome! E, graças a você, foi assim que crescemos. Valorizando a verdade. Porque você sempre deixou tudo às claras, sem meias verdades, sem evitar qualquer assunto.
Poderia colocar as risadas, as lágrimas, as broncas, os carinhos.
Nossa...eu poderia colocar tanta coisa!
Mas o que a minha memória insiste em me jogar na cara, é a lembrança daquela pergunta que você me fazia em dias como hoje: "o que você vai me dar de presente?"
E eu, sem dinheiro e, portanto, sem possibilidades de atender aos pedidos do consumismo, e por desde sempre acreditar que as letras poderiam ser o presente mais sincero, respondia seriamente: "a carta!". Eu nem sabia escrever ainda!
Você, orgulhosa, saía contando aos quatro ventos!
É...e aqui está a sua carta (mais uma entre as várias). Escrevo para agradecer o respeito, o carinho, o amor, a dedicação, os "petelecos", os ensinamentos, a sensibilidade, os valores, tudo!
Agradecer a você, minha mãe, mulher forte, voz grossa, cara de brava e coração mole. Mulher que sempre foi dona de si mesma; mulher família; inteligente; mulher independente. Mãe amorosa, defendendo seus filhos sempre com unhas e dentes, mas sem passar-lhes a mão nos cabelos, quando errados.
Uma mulher que merece a minha admiração e a de tantos outros que tiveram a oportunidade de conhecer!
Com letras sinceras de amor,
Letícia.
E parabéns a todas as mães!