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terça-feira, 26 de agosto de 2014

COMO ADUBAR A TERRA

Primeiro, faça chover chumbo
(facilmente encontrado em qualquer mercado “Águia faminta”)

Não escolha dorso
(mas priorize os que não calçam sapatos).
Os tamanhos também podem ser diversos (PP, P, M ou G),
e de ambos os gêneros.

Recolha o material resultante deste processo
(carne queimada cabeças sangue ossos pele)
e jogue tudo em uma vala.
Regue com lágrimas de órfãos e viúvos.
Jogue terra por cima,
e enfeite com uma bandeirinha religiosa.
(atenção: a bandeirinha é somente para enfeite, pois não se pode engoli-la!).

[pequena variação para terras tropicais:
projete o chumbo em becos e vielas,
em tecido preferencialmente escuro].

Feito isso, é aguardar o cozimento dos gases carbônicos
colher os tonéis de petróleo
e encher os tanques dos carros, dos aviões,
e nossas felizes cozinhas gourmet!

sábado, 7 de abril de 2012

TRÊS PONTOS E UMA COSTELA*

1.

Lavar as roupas brancas, comprar um novo micro-ondas, pagar as faturas vencidas, contratar
Uma nova faxineira, terminar o projeto do trabalho, buscar o carro no mecânico, lixar
As paredes, começar um curso de pós, trocar os canos da pia, limpar o armário, pintar
As paredes do quarto, ir às reuniões de pais, pregar as prateleiras, comprar
Roupas novas, malhar os glúteos, hidratar os cabelos, declarar
O Imposto de Renda, depilar o pelos, ligar
Para o dentista, trocar
A resistência

E empacotar os sutiãs velhos.

2.

Naquela manhã
Gastou uma hora no banho
Reforçou a curva dos cílios.

Deixou uma parte do peito à mostra
Amarrou um laço no trinco
E saiu.

Abriu o guarda-chuva
(era como abrir um bilhete premiado)


Olhava as ruas
Sem atravessá-las.
(as duas calçadas eram suas).

Riu da sua imagem no vidro da loja.
entrou, comprou dois óleos e uma lingerie

Jogou farelo de pão no jardim
(queria dar de comer aos pássaros).

 Desde a noite passada
Sentia-se prenhe.


3.
Mas há os dias de acetona
(Nas unhas,
Na pele,
Nos olhos).

Do cabelo desmanchado,
Pernas cruzadas
(Elas e as cortinas fechadas)

De quebrar a porcelana, e deixar o pó
Consumir a casa

Há os dias em que a boca
(saciada)
Arranca sangue dos seios
(dias de calar o ventre)

Ponto em cruz
E linhas inacabadas
Para uma costela feita de carne.

______________________
*Poema anteriormente publicado no Jornalirismo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre Peles

Despeja em mim as palavras
Quando falo para dentro
E quando calo para fora
Resgata-me as rodas de
Signos gira-mundo gigantes

Como o mar
a cada segundo
: expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne

e

domingo, 20 de março de 2011

NÃO HÁ CONEXÕES DISPONÍVEIS

Faltam-lhe rugas
e dão-lhe as costas
para as palavras

Batem-lhe na cara
as portas das vistas
neblinadas para seus pés raízes
(estáveis no olho
do furacão)
para seu olhar arqueólogo
(escavadeira na terra dura
do existir)


Por sua pele lisa
(e antes)
fecham-lhe os ouvidos
e retiram-lhe as enxadas
da construção


Mas, este ser
quando estampado em sua face
o mapa do tempo

(das linhas como rios
estradas e afluentes)

(que desde já, mas INvisíveis)

jogar-lhe-ão
(e as palavras)
no fundo de um baú asilo

e aposentará a língua
(silêncio e túmulo)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tecidos

Depois,

invadiu-me as entranhas

vasculhou-me

inteira

:senti-lhe

as mãos calosas

do seu tecido grosso

(Tecido pólvora)

violentando meu tecido

fino

(tecido Prada)



Antes,

mãos virgens

(trêmulas)

anteciparam o gatilho

e arrancaram-me das mãos

de esmaltes vermelhos

farol vermelho

sangue vermelho.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

NOSSA DERROTA ou POESIA É OFERTA

Se o poema pede pausa
se o problema do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
pra pintar o céu de preto
pra partir o próprio espelho
e apagar pétalas raras

Se o poema pede pausa
se a alegria do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
para perfumar o esterco
para arrepiar os pêlos
e pra pintar as próprias asas

Mas, e o leitor?
não percebeu?
Então
(que pena)
a poesia se perdeu.