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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Alguma releitura para o Séc. XXI

No meio do caminho tinha um corpo
tinha um corpo no meio do caminho
tinha um corpo
tinha um corpo no meio do caminho

Impossível esquecer estas cenas
corpos pretos pequenos
corpos furados por fardas
no meio da viela tinha um corpo
mais um corpo!
mais um corpo subtraído de seu caminho.

domingo, 8 de julho de 2012

Sem conexões disponíveis

Faltam-lhe cifras
e viram-lhe as costas
para as palavras

Fecham-lhe na cara
os vidros dos carros (e das vistas)
insufilmados para seus pés descalços

Delimitam sua circulação
(como bois no pasto)
expurgam
e tampam-lhes os acessos

Faltam-lhe massa e tintas nas paredes
e invadem-lhe a casa (às 3:00h da manhã)
invadem-lhe o corpo
e pisam-lhe (os brinquedos, as roupas, as faces)

Mas este ser
quando revolver o norte
(quando revolver o revólver)
será mais um nas estatísticas
(que condôminos aplaudirão)
Silêncio e túmulo.

sábado, 7 de abril de 2012

TRÊS PONTOS E UMA COSTELA*

1.

Lavar as roupas brancas, comprar um novo micro-ondas, pagar as faturas vencidas, contratar
Uma nova faxineira, terminar o projeto do trabalho, buscar o carro no mecânico, lixar
As paredes, começar um curso de pós, trocar os canos da pia, limpar o armário, pintar
As paredes do quarto, ir às reuniões de pais, pregar as prateleiras, comprar
Roupas novas, malhar os glúteos, hidratar os cabelos, declarar
O Imposto de Renda, depilar o pelos, ligar
Para o dentista, trocar
A resistência

E empacotar os sutiãs velhos.

2.

Naquela manhã
Gastou uma hora no banho
Reforçou a curva dos cílios.

Deixou uma parte do peito à mostra
Amarrou um laço no trinco
E saiu.

Abriu o guarda-chuva
(era como abrir um bilhete premiado)


Olhava as ruas
Sem atravessá-las.
(as duas calçadas eram suas).

Riu da sua imagem no vidro da loja.
entrou, comprou dois óleos e uma lingerie

Jogou farelo de pão no jardim
(queria dar de comer aos pássaros).

 Desde a noite passada
Sentia-se prenhe.


3.
Mas há os dias de acetona
(Nas unhas,
Na pele,
Nos olhos).

Do cabelo desmanchado,
Pernas cruzadas
(Elas e as cortinas fechadas)

De quebrar a porcelana, e deixar o pó
Consumir a casa

Há os dias em que a boca
(saciada)
Arranca sangue dos seios
(dias de calar o ventre)

Ponto em cruz
E linhas inacabadas
Para uma costela feita de carne.

______________________
*Poema anteriormente publicado no Jornalirismo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cúpula do Terror

Em cada fila
De ônibus
Os aparelhos de mp3, e celulares
Com fones de ouvidos
Contam e cantam segredos

As televisões gritam bombas
Enquanto os sofás se estendem
(preguiçosos)
Nos cantos das salas.

Os jornais espirram vírus
(e doenças)
E com suas tintas
Tatuam nos dedos e peles
[tatuam revólveres e presídios,
Foices que se esgoelam por latifúndios].

Os noticiários estapeiam cada figura
Cada figa de ponta cabeça
Que as portas barram
Para o lado de fora

empanturrado,
o tempo palita os dentes
depois da carnificina maquiada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Vira-Face

O lirismo foi expulso
do poema
da cidade
com suas veias de concreto, água e excrementos

Alguma coisa escapou dos gabinetes
dos palácios e fronteiras
e ao cair da noite
(e das bolsas)
é destaque nos jornais das 00:00 hrs.

Escapou pela fibra óptica
uma soma de cordas
um coral
que canta em disparada percussão

Alguma coisa escapou
da coroa
                               O canto entornou
                               e entoa:
                               “God, save the
People! Save us! Save the people!”

A passarada foi expulsa dos morros
                : quadro estampado na janela deste prédio
                de condomínio
                com sistema de segurança
(câmeras e cerca elétrica)

De dentro deste forte
se vê: quartos sobre quartos
(onde se amontoam (ex)pulsos)
e roupas hasteadas, esvoaçantes.

Abre-se a janela para ouvir o que evocam,
e alguma coisa sussurra
que esta cidade nunca fecha
e, para dilatar as veias (que pulsam)
descer e comprar uma aspirina
na drogaria 24 horas
(às 02:40 a. m.)

Uma lágrima
foi expulsa destes olhos
(que ao verem um made in China vagar pela noite)
lembraram dos teus
com aqueles dragões acesos em cada
(famintos por fazerem o tempo
da nossa geração)

Ah! Esses dragões!
são como um rasgo rosáceo
no azul do meu céu monótono.

Alguma coisa escapou do tempo
e eclodiu elevador acima
(uma vontade de unir dedos, mãos e espadas)

mas agora é tarde
amanhã ainda é quinta
a aspirina, efervescente
e alguma coisa
escapou desta mão
pensa.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

***

BINGO NO PARTIDO CONSERVADOR:
DA CINQUINA, UM JOGO DE TOALHAS
DA CARTELA CHEIA, UMA PISTOLA GLOCK 45.


(poema feito a partir de uma notícia de jornal)

domingo, 14 de agosto de 2011

Poema sem título (um secreto tormento?)

I

Deitar a vista no horizonte retangular
e ver lugar pra pendurar as roupas
na tua casa de ossos e sangue.
Esquecer o bairro onde nasci
sentar no bar do centro
da cidade
onde os amigos
são nossos, e a conta simples:
você, eu, eles: cenas de única peça.
e o copo cheio
de metáforas pulsantes.

II


Beber de um gole só
e quebrar o copo
Depois, pegar um taxi e
pelo retrovisor,
despedir dos personagens (que
acenam sem encenação)
e voltar e defrontar-se
com o próprio lar:
um prédio inteiro
(cortiço corpo urbano)
com espaços para novas famílias.

E pendurar a placa
na entrada/saída ocular:
"Aluga-se quartos".

sábado, 23 de julho de 2011

O TEMPO QUE ESPERE

Para Fernanda de Aragão

O TEMPO QUE ESPERE
E pare
Em algum estacionamento
Com serviço de manobrista 24 horas

Não descascarei como as tintas
Dos prédios
Desta rua Jurubatuba
                Nem vomitarei em óleo queimado
O hálito
                Das avenidas (e dias):
                               = os meus atalhos

Não trafegarei para os becos escuros
                Do esquecimento
Nem acolherei os malabaristas dos faróis
Sob o ideal pichado nos outdoors
[de fazer girar (a economia; a cidade; os ponteiros)]

O tempo que espere
Na poltrona
No pátio
Ou no raio que o parta
Que eu só permitirei este encontro
                (de espasmos e cabelos brancos)
Em alguma ressaca
Domingueira.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

na sua frenética rotina, e calmamente
ele desvia das carcaças desconhecidas
(de rostos em branco)

entre o virar de chave

às 7:00

e outro
às 20:25


são os mesmos slides:

garagem
trânsito
buzina
escritório
buzina
trânsito
garagem.

E depois o sono
compactado em uma cápsula de lexotan.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A dentadura

A arquitetura
da reta
dos dentes
conectam o gosto
da maçã

A brancura de sorriso
e o cálcio que se foi
pelo ralo,
depois dela,
ressurge
em descobertas
arqueológicas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Diálogos, logos e poemas

Primeiro poema:

- É QUANTO?

- 250!

-Faz por 150?

- Tá...Mas sem os utensílios!



Segundo poema:

A PROCURA

- Achou?

- Ainda não!


E no chão do quarto

mar de bolinhas de papel.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ETERNIZAR *

Para eternizar pálidas lágrimas
Para eternizar olhares cansados
Para eternizar cores e flores
Para eternizar momentos
e amigos amados

máquina em punho
e o mundo fotografado.

Fotografo a lá minute
Olhó passarinho

________________________
* poema express, escrito para acompanhar o presente da amiga (ex) secreta Aurilene, que tem um hobby.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lua

Seu sussurro de soberana
semeia
alucina
assombra

Seu sussurro de segredos
assume a cidade
nua
cidade sua

Seu sussurro macio
sobe os céus e as ruas
cintila
sonda
assusta

Seu sussurro seco
feitiços de cigana
suga o suco
do sereno

Seu sussurro no silêncio
atravessa os sonhos
assola
o avesso do sossego

Seu sussurro sem censura
expressa e merece mesura
musa lúcida
suave fissura

Seu sussurro pulsa
e sinto renascer-me assim
sempre nova
sempre crescente
sempre
Lua

____________________________
Este poema também se encontra no site www.jornalirismo.com.br.
Dê uma passadinha por lá e confira! Vale a pena.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

TILIN-TIN

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
tilin-tin
noite e dia

tilin-tin
de mansinho
e a beata
desvia

tilin-tin
sol a pino
e a companhia
canina

tilin-tin
com preguiça
e o empresário
se esquiva

tilin-tin
repetido
na barra
do bispo

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
tilin-tin
noite e dia

tilin-tin
reprimido
e o cheiro
de vinho

tilin-tin
pouco tímido
e careta
do cínico

Tilin-tin
bem baixinho
e o amarelo sorriso
do doutor político

Tilin-tin
oprimido
e o pão repartido
aos senhores da missa

A brisa eucarística
lá em cima, os sinos
e tilin-tin
tilin-tin
no alumínio
do mendigo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

NOSSA DERROTA ou POESIA É OFERTA

Se o poema pede pausa
se o problema do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
pra pintar o céu de preto
pra partir o próprio espelho
e apagar pétalas raras

Se o poema pede pausa
se a alegria do poeta
está presente, está em pauta
ele pescará palavras
para perfumar o esterco
para arrepiar os pêlos
e pra pintar as próprias asas

Mas, e o leitor?
não percebeu?
Então
(que pena)
a poesia se perdeu.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Poema dos meus sentimentos hoje

Vi um sino sem tino
xícaras vazias
fantasias destruídas
e um tico-tico encolhido no ninho

Vi uma menina aos gritos
sorrindo e pedindo ouvidos
Vi uma formiga
proferindo-se diva

Vi uma víbora adormecida
vingativa, se ferida
ressentida

Vi lírios oníricos
de raízes rígidas na brisa da caatinga
e preguiça

Vi um paraíso colorida
abrigo de risos
e desatinos

Vi um trilho firme
possível destino prometido:
o pico

Vi brincos reluzindo
tinindo
um vestido carmim
em melodia intimista

Vi uma aprendiz
descobrindo cifras
vilas
línguas
cantigas

Vi, ouvi e senti
Letícia