domingo, 27 de novembro de 2011

Vira-Face

O lirismo foi expulso
do poema
da cidade
com suas veias de concreto, água e excrementos

Alguma coisa escapou dos gabinetes
dos palácios e fronteiras
e ao cair da noite
(e das bolsas)
é destaque nos jornais das 00:00 hrs.

Escapou pela fibra óptica
uma soma de cordas
um coral
que canta em disparada percussão

Alguma coisa escapou
da coroa
                               O canto entornou
                               e entoa:
                               “God, save the
People! Save us! Save the people!”

A passarada foi expulsa dos morros
                : quadro estampado na janela deste prédio
                de condomínio
                com sistema de segurança
(câmeras e cerca elétrica)

De dentro deste forte
se vê: quartos sobre quartos
(onde se amontoam (ex)pulsos)
e roupas hasteadas, esvoaçantes.

Abre-se a janela para ouvir o que evocam,
e alguma coisa sussurra
que esta cidade nunca fecha
e, para dilatar as veias (que pulsam)
descer e comprar uma aspirina
na drogaria 24 horas
(às 02:40 a. m.)

Uma lágrima
foi expulsa destes olhos
(que ao verem um made in China vagar pela noite)
lembraram dos teus
com aqueles dragões acesos em cada
(famintos por fazerem o tempo
da nossa geração)

Ah! Esses dragões!
são como um rasgo rosáceo
no azul do meu céu monótono.

Alguma coisa escapou do tempo
e eclodiu elevador acima
(uma vontade de unir dedos, mãos e espadas)

mas agora é tarde
amanhã ainda é quinta
a aspirina, efervescente
e alguma coisa
escapou desta mão
pensa.

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