O lirismo foi expulso
do poema
da cidade
com suas veias de concreto, água e excrementos
Alguma coisa escapou dos gabinetes
dos palácios e fronteiras
e ao cair da noite
(e das bolsas)
é destaque nos jornais das 00:00 hrs.
Escapou pela fibra óptica
uma soma de cordas
um coral
que canta em disparada percussão
Alguma coisa escapou
da coroa
O canto entornou
e entoa:
“God, save the
People! Save us! Save the people!”
A passarada foi expulsa dos morros
: quadro estampado na janela deste prédio
de condomínio
com sistema de segurança
(câmeras e cerca elétrica)
De dentro deste forte
se vê: quartos sobre quartos
(onde se amontoam (ex)pulsos)
e roupas hasteadas, esvoaçantes.
Abre-se a janela para ouvir o que evocam,
e alguma coisa sussurra
que esta cidade nunca fecha
e, para dilatar as veias (que pulsam)
descer e comprar uma aspirina
na drogaria 24 horas
(às 02:40 a. m.)
Uma lágrima
foi expulsa destes olhos
(que ao verem um made in China vagar pela noite)
lembraram dos teus
com aqueles dragões acesos em cada
(famintos por fazerem o tempo
da nossa geração)
Ah! Esses dragões!
são como um rasgo rosáceo
no azul do meu céu monótono.
Alguma coisa escapou do tempo
e eclodiu elevador acima
(uma vontade de unir dedos, mãos e espadas)
mas agora é tarde
amanhã ainda é quinta
a aspirina, efervescente
e alguma coisa
escapou desta mão
pensa.
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